DOS LOUVORES QUE ECOAM NO DESERTO

Faz duas semanas que meus estudos bíblicos estavam voltados para aprender sobre os dias de aridez que todos passam, havia até acabado um jejum nesse sentido, sem saber o que estava por vir. Porém, sábado à noite enquanto viajava recebi uma mensagem que dizia: - “Nosso amigo acabou de sofrer um acidente, ore por ele”. Esta mensagem fez por alguns instantes meu coração “gelar”. Esse era o início da minha caminhada mais recente pelo deserto.

Com o passar das horas durante a madrugada, as notícias sobre a gravidade do acidente estavam mais evidentes, e eu ainda estava há centenas de quilômetros de tudo que estava acontecendo. Meu coração estava se apertando, eu só queria estar perto dele. Foi quando me vi em um deserto. Comecei a perceber como somos tão vulneráreis lá em terras secas. Pelas minhas mãos eu não poderia fazer absolutamente nada para ajudar meu melhor amigo. Nada. É como ter sede e não encontrar água para beber. Passei a madrugada chorando e orando, minha única esperança era uma intervenção de Deus naquela situação.

Na manhã de domingo, acordei cedo e logo peguei estrada para nossa cidade. Eu só queria chegar rápido. Na verdade, apesar das circunstâncias, eu estava confiante na cura do meu amigo. Entre um momento e outro, quando havia sinal de telefone, chegavam respostas que ele estava reagindo e me dava certeza da cura, ao passo que, em outros momentos mensagens do agravamento não abalaram minha confiança. A viagem foi longa. Quanto mais me aproximava, o quadro piorava junto com os resultados dos exames, o sofrimento estava mais agudo dentro de mim a cada minuto que passava. Finalmente, cheguei ao hospital. Entrei correndo, havia centenas de pessoas na porta. Eu só queria vê-lo. Fiquei no hospital até por volta das 22:30h. Ao fim do dia, fui para casa com um misto de esperança e medo. Eu tinha uma grande convicção, e por outro lado, internamente sentia que estava prestes a perder alguém que amo. Meu coração e minha mente estavam em uma batalha constante e bem acirrada, um contra o outro, e me causava grande dor.

Deitei para descansar, queria ir cedo para o hospital no outro dia. Com receio de receber qualquer mensagem, guardei o celular na gaveta. Quando pelas paredes do meu quarto, ouvi um choro muito alto, era minha mãe. Ninguém precisou me contar, pude sentir, eu sabia que Deus havia o chamado. Minha mãe veio me consolar, eu ainda estava sem reação. Não conseguia acreditar, parecia tudo um grande pesadelo. Naquele momento eu senti como poderia ser a solidão no deserto. Comecei a querer pensar e entender os motivos e os por quês de Deus permitir que isso acontecesse. Olhando através da minha janela, não tive resposta. Isso tudo me mostrava que no deserto, somos tentados a colocar Deus em “cheque”, questionar Seu poder, tentados a nos frustrar diante d’Ele. Era isso que estava acontecendo. E foram essas as duas primeiras provas do diabo instigando Jesus (em Mateus 4), quando Ele foi questionado sobre a provisão e o poder de Deus em um lugar de infertilidade e aparente abandono.

Apesar de todas aquelas perguntas terem se passado na minha cabeça, eu acreditava no controle de Deus. No início daquela madrugada, iríamos passar a noite entre um grupo de amigos do Rafa. Peguei carona e indo encontrar com o restante do grupo, atravessando a cidade tão escura, por volta das duas da manhã, meu amigo que dirigia me disse que não estava compreendendo Deus. Disse que não era possível alguém com 20 anos que impactava tanto no Reino de Deus morrer. Disse que não era justo. Alguns segundos de silêncio se passaram. No meu coração, eu parecia escutar: Vocês não entendem agora, mas Deus tem um propósito nisso tudo, Deus é bom. Eu repeti isso que passava no meu coração para ele. E começamos a cantar no carro: “ You’re good! Good! Wooh!!” (King of my heart).

Chegou o dia do velório, eu não tinha coragem para sair da cama e encarar a morte. Porém, ao entrar na igreja para o culto fúnebre, era então, o momento para entender o principal ponto do deserto. Começava um culto de louvor e adoração. A atmosfera era leve, não parecia um velório, estávamos sentindo a presença do Espírito Santo Consolador. “Deus habita no meio dos louvores do seu povo” (Salmos 22:3). Era isso que podíamos sentir, Sua doce presença. Comecei a compreender que os louvores que ecoam do deserto são uma questão de sobrevivência por lá. É o que nos sustenta. Somente a presença d’Ele faz fluir rios no ambiente mais árido. Estávamos encontrando água aonde parecia não existir nascentes. Ele estava abrindo as rochas e fazendo brotar água fresca em abundância (Salmos 78:15-16). Lembrei-me da última resposta de Jesus em sua provação no deserto: ”Adore somente ao Senhor seu Deus. Sirva ao Senhor com inteireza do coração” (Mateus 4:10). O deserto é o lugar de estabelecer louvor e adoração. É vindo do deserto que os louvores ecoarão até o diabo precisar fugir e toda tentação falhar (Mateus 4:11).

A beleza do deserto é que na menor das expectativas de encontrar fonte onde beber, Deus nos ensina sobre Seu amor e fidelidade. Ele estará ao nosso lado quando passarmos pelo vale mais sombrio. Ele estará dentro do barco em meio à tempestade. A vida ao lado de Jesus não anula os momentos difíceis da nossa jornada, mas nos dá esperança para vivê-los com perseverança, pois Ele está acima da morte. Ele transforma o deserto em lugar de descanso, terra árida em campo fértil. No meio do caos, Jesus trouxe paz e transformou - está transformando e transformará - a morte do Rafael Brandão, em vida para milhares de pessoas. Ele está nos ensinando sobre seu cuidado em cada detalhe.

Bem, agora passa um rio profundo no meio do deserto que não nos deixa sentir sede, nos consola. Estamos felizes e entregamos nosso louvor e adoração a Deus, porque os planos de d’Ele são maiores e melhores que os nossos. O Deus do Rafael está agindo poderosamente com soberania. O consolo está sobre nós e testemunharemos sobre a alegria de sermos encontrados pelo amor de Jesus.

#InMemoryOfRafael

Amigo e irmão, João Victor Araujo.